sábado, 27 de dezembro de 2008

Carpinejar

PortaAberta

(...)
Nossa coerência

é estar mudando.
A chama desmaiou
e a levamos nos braços.

Tivemos a coragem
de superar o começo,
não transformar a filiação

em mapa de guerra,
imitação da treva.
O percurso tem sentido

quando percorrido.
Do resumo das veredas,
reverdece o sumo

de ter colhido
o sabor da vertente.
Nossa amizade

é mais um gole da gaita,
um golpe no tambor.
Nossa amizade

é estar névoas adiante
do que somos.
Só é mortal

o que não vimos.
Despeço-me do passado
como um cavalo sem dono.

Não devo conselhos,
não devo a franqueza
das pausas,

a serenidade dos escolhos,
não devo a força
de minha fraqueza.

Mergulho os calcanhares
a empurrar
a barca do ventre

e circundas o vazio,
os ciclos do som,
conciliado com a verdade,

pai maduro de minha escolha,
navegando
a paternidade das águas.

Fabrício Carpinejar

In: “Um Terno de Pássaros ao Sul” - (Escrituras Editora, 2000)

Um comentário:

Esther disse...

Belo!Belo!Belo!

De tudo o que Carpinejar escreve
este poema tem um quê inexplicável
de beleza, de eternidade que
me toca profundamente...

"o que não vimos.
Despeço-me do passado
como um cavalo sem dono.

Não devo conselhos,
não devo a franqueza
das pausas..."

adoro esse fragmento..

ótima escolha de post!