quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Feliz, insuportavelmente



Aos poucos a lua perde o resplendor.
O rio sabe a sangue, e ninguém sabe.
É a derradeira chance de me ver
pela primeira vez inteiro: cara a cara.
Simplificar prefiro. Por que hesito
em revelar as águas escuras
que me percorrem, essas onde moram
peixes cinzentos, surdos, que me sabem?
Dizer me basta que não cometi
o pecado pior do homem:
o de não ser feliz (O juízo é de Borges
que era cego, mas descobriu a rosa
escondida no coração da moça.)
Vi o fundo de um lago de esmeraldas.
Eu fui feliz, insuportavelmente.
As desgraças que duras me feriram
nada foram (contando a de existir)
ao lado dos milagres que vivi,
dos mágicos momentos que inventei.
Não é preciso ir longe. Numa noite
de ardente primavera eu viajei,
abraçado aos cabelos desvairados
que me ensinavam o cântico dos cânticos,
pelo mar dos espaços siderais.
Voltei intacto. Parece que passaram eternidades.
Sozinho agora sou: perante mim,
ou entre mim e a noite que me chama,
espaço em que mal cabe o que escondi.
E mais de meio século de festa,
de lágrimas, de assombro, de ternura,
inútil se resume na fagulha
fugaz do tempo em que meu ser total,
resíduo de memórias, já se adere
- imperceptível -
ao silêncio noturno da floresta.

- Thiago de Mello –

4 comentários:

Maria disse...

O título por si só é atraente o suficiente. O verso, bom, o verso é beleza destilada.

Beijo recitado

Mateus Araujo disse...

Melancólico e lindo.
Ótimo poema.
Abraçoo

Mai disse...

Gosto de Thiago de Mello.
Tenho dele 'toada de cambaio' onde fala de uma vida que não viveveu.

Vim deixar-te um carinhoso abraço.
Fica bem.
Estás?
Carinho.

Felicidade Clandestina. disse...

lindo,claro e preciso.

como uma flecha certeira*

amei.