segunda-feira, 29 de junho de 2009

Onde está Deus, mesmo que não exista?


Fotografia: Pedro Benavente

Onde está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, gozar ser perdoado como uma carícia não propriamente materna. Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer… Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro…
Uma infância nova, uma ama velha outra vez, e um leito pequeno onde acabar por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se torna morna, de perigos grandes – penetravam em jovens cabelos louros como o trigo… E tudo isto muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única de Deus, lá no fundo triste e sonolento da realidade última das Coisas…
Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço… Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar… O ruído de lume na lareira… Um calor no inverno… Um extravio morno da minha consciência… E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas…

Quando ponho de parte os meus artifícios e arrumo a um canto, com um cuidado cheio de carinho – com vontade de lhes dar beijos – os meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases – fico tão pequeno e inofensivo, tão só num quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste!…
Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia. De meu pai sei o nome; disseram-me que se chamava Deus, mas o nome não me dá ideia de nada. Às vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e faço-me uma ideia dele a que possa amar… Mas depois penso que o não conheço, que talvez ele não seja assim, que talvez não seja nunca esse o pai da minha alma…
Quando acabará isto tudo, estas ruas onde arrasto a minha miséria, e estes degraus onde encolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos? Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para sua casa e me desse calor e afeição… As vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o posso pensar… Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas caem no passeio… Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm sentido nenhum… E de tudo isto fico apenas eu, uma pobre criança abandonada, que nenhum Amor quis para seu filho adoptivo, nem nenhuma Amizade para seu companheiro de brinquedos.
Tenho frio de mais. Estou tão cansado no meu abandono. Vai buscar, ó Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite para a casa que não conheci… Torna a dar-me, ó Silêncio imenso, a minha ama e o meu berço e a minha canção com que eu dormia…

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol. II. Fernando Pessoa

4 comentários:

Maria disse...

Incrível. Fiquei comovida, completamente comovida. A princípio acreditei que poderia ser um exagero, uma blasfêmia... surpreendi-me com a ternura, o pedido sincero. Estou impressionada.

Meu beijo, querido Paulo.

Dois Rios disse...

Paulo,

Esse texto de Bernardo Soares é de uma tristeza desoladora. É a síntese da solidão no mais amplo alcance que essa palavra possa ter. Solidão de amor, companhia, sonhos, ternuras, futuro, mãe... Solidão de Deus.

Beijo,
Inês

Mai disse...

Mergulhos no fundo do mar... Abismos de ir e voltar...
Não há muito o que dizer no desamparo primordial dos humanos, a falta, a solidão...

Beijo você, amigo.

Daniel Hiver disse...

Deus existe!!! E o maior responsável pelas minhas trsitezas sou eu mesmo e os tristes que me rodeiam e que exalam ar triste... Os mesmos que inspiram ar empregnado de pólen da flor da depressão.
Que existe e é doença real.
Daniel Hiver