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quinta-feira, 11 de março de 2010

Esta Gente


Fotografia: Raul Alexandre

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos


Ora me lembra reis
Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra


O porco e o milhafre
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome


É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome
E em frente desta gente


Ignorada e pisada
Como a pedra no chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada


Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa


E de um tempo justo.


- Sophia de Mello Breyner Andresen -



segunda-feira, 1 de junho de 2009

Paisagem



Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areias as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elásticas e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,

Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exaltação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

Sophia de Mello Breyner Andresen